Sem partidas e competições, atletas profissionais jogam videogame pela internet

Astros da NBA têm dedicado seu tempo a fazer transmissões pela rede de suas partidas de videogame; além de distração, 'hobby' também complementa renda

Numa noite dessas, Meyers Leonard, jogador do time de basquete americano Miami Heat, se sentou na cadeira estofada em frente a três imensas telas de TV, pegou o fone de ouvido Astro A40, o controle Xbox Scuf Prestige e ligou o microfone Blue Yeti. Em tempos normais, Leonard estaria em casa depois de um jogo em Indiana e se preparando para enfrentar o Oklahoma City Thunder na próxima rodada. O Heat estaria tentando uma vaga nos playoffs.


Mas, agora, com o novo coronavírus fechando a NBA e quase todos os outros aspectos da sociedade, Leonard estava em casa, sem ter para onde ir nem o que fazer além de participar de um torneio de Call of Duty: Warzone na plataforma de streaming Twitch. Enquanto esperava o início do combate, Leonard ficou dando uma olhada na janela de bate-papo, respondendo a perguntas de cerca de 600 espectadores em seu canal.


Seu companheiro de equipe Duncan Robinson pega pesado na balada?

"Não sei, sou casado", respondeu Leonard.

Qual era o seu plano de treino?

"Um monte de levantamento de peso".

Que tipo de corte de cabelo ele já teve?

"Um topete do c..."


"Vamos ver o que vai acontecer com a NBA e o mundo", continuou Leonard. "Pode acreditar, se você veio aqui atrás de conteúdo, você está no lugar certo. Estamos ao vivo, baby! Vamos nessa! Valeu, seguidores!".

Com a temporada da NBA em suspenso, vários jogadores vêm preenchendo o vazio com streaming. Nessa noite, Leonard estava jogando junto com Bronny James, filho de LeBron, e Mario Hezonja, jogador do Portland Trail Blazers. De'Aaron Fox, do Sacramento Kings, Larry Nance Jr., do Cleveland Cavaliers, e Josh Hart, do New Orleans Pelicans, também estavam no torneio.


Mesmo antes da pandemia, o streaming estava se tornando uma maneira cada vez mais popular de os atletas se conectarem com seus fãs. Leonard, Fox e Hart são presenças constantes no Twitch, onde a conversa nas salas de bate-papo parece íntima e os jogadores ficam mais à vontade. "Eu sou branco?", Leonard leu no chat em dado momento. "Sou", respondeu ele, dando risada.


Mas, nesta nova normalidade, o streaming virou algo mais: faz parte do mecanismo de enfrentamento da crise e talvez seja a única maneira de manter um senso de comunidade durante a pandemia. É também a única maneira de fornecer novos conteúdos aos fãs, muitos dos quais estão igualmente trancados em casa; e também pode ser o momento para as plataformas de jogos e streaming ganharem nova relevância.


De acordo com a agência de análise Esports Charts, o número total de streamers que alcançaram pelo menos cinco espectadores simultâneos no Twitch saltou quase 77%, de cerca de 470 mil na última semana de fevereiro para mais de 800 mil na última semana de março.


Além de seus jogadores, o Phoenix Suns está simulando a temporada na NBA2K; o Washington Wizards estão fazendo o mesmo e transmitindo os jogos na TV aberta. Uma recente corrida virtual da NASCAR com jogadores profissionais de videogame e ex-pilotos como Dale Earnhardt Jr. foi transmitida pela Fox Sports 1 e atraiu quase 1 milhão de espectadores. Vários eventos de arrecadação de fundos, estrelando Michael Vick, Juju Smith-Schuster, do Pittsburgh Steelers, Richard Sherman, do San Francisco 49ers, e outros atletas levantaram milhões para caridade.


Enquanto isso, Las Vegas legalizou novos tipos de apostas de eSports. "Esse financiamento adicional produzirá um ciclo virtuoso que irá incentivar plataformas como Twitch, YouTube e ESPN+ a investir mais em direitos de eventos de eSports, promoções e monetização", escreveu Matthew Ball, ex-chefe de planejamento estratégico da Amazon Studios, em um artigo recente. "Assim as principais equipes terão mais facilidade para arrecadar capital, atrair fãs e investir em suas marcas e talentos".


Ball também observou que o futebol universitário cresceu em popularidade em todo o país quando foi impulsionado pela visibilidade e o poder de marketing da ESPN. "Você pode até questionar o fato de que foi necessário interromper o esporte de verdade para que os eletrônicos ficassem mais populares", escreveu ele. "Mas não pode negar a importância do investimento de emissoras e anunciantes para o sucesso de todas as ligas esportivas".


Fazendo a ligação entre jogos eletrônicos, conteúdo e engajamento com atletas estão jogadores como Leonard e Hezonja. Vários anos atrás, Leonard foi a um evento organizado pela Associação de Jogadores da NBA focado na vida após o basquete. Ele pensou que aprenderia sobre empreendimentos imobiliários, mas um painel sobre eSports chamou sua atenção. "Meus olhos brilharam", disse ele. "Descobri o que queria fazer depois do basquete".


Agora Meyers passa boa parte das férias no streaming e investe no FaZe Clan, que patrocina streamers no Twitch e no YouTube e tem uma equipe profissional de Call of Duty.


No momento, Leonard está em isolamento com sua esposa, Elle. Eles meditam, treinam, tomam café da manhã e, depois, ele já vai para a sala de jogos. Nas tardes de segunda-feira, Leonard faz transmissões para arrecadar dinheiro para os esforços de combate à covid-19. Nos outros dias, ele joga torneios do Twitch. "Distanciamento social? Tranquilo, sem problema!", disse Leonard. "Nós não estamos brigando no garrafão para não espalhar coronavírus. Estamos só relaxando e jogando videogame".


Hezonja faz transmissões de oito horas todos os dias. Ele mora sozinho em Portland. Durante uma entrevista, quando lhe perguntaram se ele estava preocupado com a solidão, Hezonja disse: "Sou eu e meus videogames agora, estou adorando!".

Duas semanas atrás, os dois jogadores ainda viviam a rotina da temporada da NBA. Leonard estava se recuperando de uma lesão no tornozelo. Hezonja estava dizendo a seus companheiros de equipe que precisavam aumentar a intensidade nos jogos em casa. Aí Rudy Gobert, do Utah Jazz, testou positivo para o vírus minutos antes de um jogo em 11 de março, e a temporada parou. (Devin Booker, do Suns, soube da notícia enquanto transmitia ao vivo pelo Twitch).


Leonard lembrou que, naquela noite, ficou acompanhando as notícias pelo feed do Twitter de Adrian Wojnarowksi, repórter da ESPN. "É assim que a gente vê as novidades", disse ele. "Pelas bombas do Woj".


Muitas equipes da NBA fizeram exames para coronavírus, apesar da escassez de testes em todo o país, e vários jogadores tiveram resultados positivos. A primeira reação de Hezonja foi querer fazer o exame, por causa da facilidade com que o vírus pode se espalhar entre os jogadores. Mas, depois de uma reunião com autoridades de saúde pública do Oregon, ele ficou sabendo da escassez de testes.


"Eu estava tentando dizer que todos nós deveríamos fazer o teste", disse ele. "Mas aí veio o departamento de saúde [do Oregon] e eles disseram que só temos oitenta testes. Ficamos chocados. Os Estados Unidos são tipo uma potência, e foi chocante saber que tínhamos apenas oitenta testes. Não queremos ver pessoas morrendo e sofrendo, então não quero mais fazer o teste".

Nos dias seguintes, seu mundo encolheu. No início, Hezonja podia se exercitar nas instalações da equipe, desde que houvesse apenas uma bola em uso e uma pessoa na sala de musculação por vez. Mas pouco depois a liga fechou todas as instalações das equipes; seu restaurante favorito fechou. Agora ele está dentro de casa, como tantos outros.

"É uma sensação muito, muito estranha", disse Leonard. "Não estou acordando e saindo para treinar ou fazer uns arremessos. E você sabe que é uma epidemia mundial. Tudo está fechado. Eu estava pensando comigo mesmo: 'beleza, vou me preparar para voltar da lesão no tornozelo'. E agora é tipo: 'a temporada acabou?'". Enquanto isso, dá-lhe Call Of Duty.



Por Terra

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