Apesar da crise, mercado de luxo não para de crescer e deve movimentar R$ 29 bi em 2023

RIO - Reservar um restaurante disputadíssimo para um pedido de casamento, andar só de jatinho — alguns com tapetes de seda e banheiros decorados com a grife italiana Fendi —, mandar buscar em outro estado a estilista ou o representante de marcas como Prada e Louis Vuitton para ver as peças em casa e hospedar-se em hotéis onde, ao chegar no quarto, sua bebida preferida lhe espera. Estes “pequenos” mimos são parte de um seleto mercado que, apesar da crise, só cresce.

Nesse nicho, o exclusivo, o exótico e o pouco atingível são ativos essenciais que despertam interesse sobre produtos e serviços, criando cobiça e justificando os preços altos. Este mercado movimentou, no Brasil, R$ 26 bilhões no último ano, segundo um estudo sobre luxo feito pela Consultoria Euromonitor International. O levantamento prevê que, até 2023, o valor crescerá para R$ 29 bilhões.

O aumento geral de 2013 para 2018 foi de 26%. Ainda assim, para Elton Morimitsu, analista sênior da indústria de Luxury Goods da Euromonitor, o número não é tão animador. Segundo ele, os números estão aquém do potencial de compra desse público. Além disso, diz, nos últimos anos algumas marcas saíram do país ou diminuíram suas operações no Brasil.


— Esperava-se um aumento maior. Até antes da crise, o mercado vinha apresentando taxas de crescimento mais robustas. Na América Latina, o Brasil tinha um protagonismo de compras de luxo, que hoje está com os mexicanos.


Quem são eles


O comprador milionário também gosta de economizar dinheiro, quer ser paparicado e reconhecido. Mas existem vários perfis. Lilyan Berlim, pesquisadora do Laboratório de Economia Criativa da ESPM Rio e professora de Pós em Luxo e Marcas Premium, cita alguns:


— O discreto é aquele que não ostenta, mas quer demonstrar, pelo valor gasto em um presente, o quanto o outro é amado. Este comprador não vai ao desfile: ele manda buscar a estilista de alta moda para ir em sua casa. Há ainda o que gosta de mostrar a marca e ressaltar a sua distinção social. Há as celebridades, que às vezes não têm alto poder aquisitivo e usam permuta. E existe, ainda, o milionário que se sente constrangido em ostentar frente ao cenário de miséria da população em geral — resume a autora do livro “Moda e sustentabilidade, uma reflexão necessária”.

O conceito do ‘Premium’


Rosana de Moraes, publicitária especializada em marketing de luxo há mais de 20 anos, e professora da FGV, explica que a maior mudança de uns anos para cá foi a “democratização do luxo”. Isto se deu com o surgimento de uma outra categoria que fica acima da média da população, mas abaixo do topo do luxo: o “premium”.

— Os itens de luxo não ficaram mais baratos, mas também não estão mais tão limitados quanto antes. O premium surgiu aí e carrega atributos de luxo — explica a autora do recém-lançado livro “O marketing e a arte do luxo na era da experiência — e inspirações para outros segmentos”.

Diante dessa democratização do “premium”, as marcas reagiram com itens fora do comum. Isso significa que, além da linha padrão, há coleções super exclusivas. Por exemplo, um modelo clássico na Louis Vuitton custa entre R$ 6 mil e R$ 10 mil. Já na nova coleção, os preços alcançam os R$ 24 mil. E a restrição não para por aí.


— Quanto mais escasso, mais valioso é o produto. Os clientes querem o que ninguém tem. O luxo trabalha dentro do valor simbólico também. Por isso, algumas marcas criam linhas para públicos diferentes e vendem produtos diferenciados apenas para a Europa, que não chegam a Brasil, China ou Rússia — esclarece Lilyan.

Um exemplo desse mundo à parte e suas extravagâncias é a viagem que Lilyan organiza para a Europa, onde um grupo pequeno passa 10 dias fazendo um tour bem personalizado que inclui visitas a todas as exposições de moda.


— A exclusividade e a quantidade afetam o quão especiais são os atributos. A matéria-prima rara, a mão de obra qualificada e a pouca abundância reforçam o valor da marca. O preço alto é consequência — avalia Rosana.


Ainda assim, segundo Elton Morimitsu, da Luxury Goods da Euromonitor, os brasileiros têm preferido comprar no Brasil mesmo, por algumas comodidades. Para começar, o serviço é mais cortês.


Ao entrar em uma loja aqui, esse cliente é reconhecido e o atendimento é personalizado — algo que talvez não acontecesse numa loja lá fora, onde seria preciso disputar a atenção com outros milionários. Em caso de problemas, fica mais fácil a troca ou conserto.


O gasto, porém, é maior:

— Em um levantamento, vimos que, com o que pagaria em um Rolex aqui, o cliente conseguiria comprar passagem para os EUA, ficar dois dias lá e comprar o relógio. Mesmo milionário, ele também quer economizar — diz Morimitsu.


No Brasil, alta do consumo é puxada por carros


O aumento no consumo de itens de luxo no Brasil foi puxado, principalmente, pela indústria automobilística. Dos R$ 26 bilhões movimentados no ano passado, R$ 14 bilhões foram somente com a compra de carros pomposos.

Como em outros segmentos, os fabricantes de veículos também têm modelos “premium” (acessíveis, mas nem tanto) e os topo de linha. Segundo o diretor de vendas da Porsche Brasil, Werner Schaal, a linha premium teve um recuo de 5% no ano passado, mas os modelos mais caros registraram um crescimento de 10%.


— Na Porsche o crescimento foi de 15% — acrescenta Schaal, lembrando que os modelos considerados “premium” são aqueles a partir de R$ 150 mil e os top , custam de R$ 250 mil em diante. O Cayman, carro “mais barato” da marca alemã de esportivos hoje custa R$ 329 mil.


Já na percepção do diretor de vendas e Marketing da BMW do Brasil, Roberto Carvalho, o mercado nacional de veículos premium vem apresentando crescimento neste ano, depois de dois enfrentando uma tendência de queda.

— A BMW vem registrando um incremento nas vendas desde o ano passado. A marca tem investido em uma ofensiva no segmento de alto luxo, em âmbito global, com uma gama de modelos diversificada — diz ele, mencionando o sedã Série 7, o cupê Série 8, os esportivos híbridos plug-in i8, o utilitário X7 e a linha com preparação especial M, que têm tido crescimento robusto em vendas nos últimos meses.

Uma característica comum a quem compra tais carros é investir na personalização do que já é exclusivo.


— O nível de detalhamento é importante para esse público e, por isso, 100% dos nossos carros são configuráveis. O comprador tem uma ferramenta para customizar itens como o tipo de couro do banco e até mesmo sua costura — conta Schaal sobre os carros com preços que variam entre R$ 329 mil e R$ 1,26 milhão.


Além destes, a marca ainda fabrica edições especiais, cujos preços podem chegar a R$ 2 milhões, e versões numeradas. Estas, devido ao volume de produção sempre baixíssimo, costumam ser ainda mais cobiçadas por quem pode pagar.

instagram-icone-icon-1.png
Whatsapp-Imagens-Png-zg9Ts7.png
logo-facebook-transparente2.png

A VOZ DOS MUNICÍPIOS